segunda-feira, 18 de abril de 2011

Até a hora que virar de verdade.





A Virada Cultural ocorre desde 2005 e é promovida pela Prefeitura de São Paulo. São 24 horas ininterruptas de atrações de música, cinema, dança, teatro, circo …  espalhadas pela cidade (principalmente pelo centro) e alguns pontos da periferia. Frisson, loucura, apoteose … depois o silêncio. Em termos de investimento (o divulgado foram 8 milhões), o custo é alto, em termos de politica cultural é um desastre.  Não se faz política cultural em 24 horas. Maravilha seria a Virada Cultural nas 24 horas escolhidas e varias viradas pelo ano todo. Ao invés de uma ação relâmpago, varias ações estruturantes, permanentes, mas …
Deixando um pouco de lado a militância cultural e caindo na pura fruição, fui atrás da música. O ano passado confesso que a garoa e o excesso de público me afastaram da Virada, fui timidamente assistir o Booker T na São João, chegando com o show já começado e saindo com ele por terminar. Neste ano, três atrações me animaram a principio: Fred Wesley, Skatalites, Eumir Deodato, duas delas conferi, uma eu perdi, mais vieram outras de lambuja, e valeu a pena.
Na noite de sábado, cheguei por volta das 21:40 na Praça da República, prestes a começar a apresentação do trombonista americano Fred Wesley. O velho Nelson Triunfo (agitador da cena e exímio dançarino de soul) apresentou Fred, que foi arranjador e trombonista de James Brown, George Clinton e liderou o JBs. Música de verdade com direito a um baixista da pesada que roubou a cena e detonou: Dwayne Dolphin. No mais, arranjos corretos de um cara que escreveu um capítulo considerável da historia do soul e um set list de matar barata no chão. Bom começo.
Pensei em ver o Skatalites, veteranos, precursores e sobreviventes da primeira onda do ska. Pensei, pensei. Desisti. O palco São João devia estar muito cheio.
Fui direto para o Palco Libero Badaró onde se apresentaria uma hora depois Eumir Deodato.
Cheguei lá e ainda tava no palco (foi no meio da apresentação) o tecladista inglês Brian Auger e o Oblivion Express, que vem desde a década de 60, misturando jazz, psicodelia, blues, pitadas de soul. Sorte, sorte!  Durante a sua carreira ele tocou com Hendrix, Eric Burdon, Sonny Boy Williamson,  John McLaughlin … Na apresentação ele esbanjou simpatia, misturou português com italiano nos agradecimentos, batera, baixo e a cantora Savanah Auger seguraram a onda. A hora de espera do show do Eumir foi recheada com a música de Brian Auger  e seu Hammond B3 cheio de camas malandras, que até então eu só havia escutado em disco. A emenda foi melhorando o soneto.
Eumir Deodato é daqueles músicos que ja chega com o show ganho, junta grandes acompanhantes pela fama e pela qualidade, vale a pena elencar: João Castilho (guitarra) que debulhou nos solos, Renato Massa (bateria) , Leonardo Reis (percussão), Marcelo Mariano (baixo)  filho de Cesar Camargo Mariano e da cantora Marisa Gata Mansa, José Canto (sax barítono e flauta),  Jessé Sadoc (trompete), Aldivas Aires (trombone), Marcelo Martins (sax alto).
E descem versões maneras de Steely Dan (Do It Again), Led Zeppelin (Black Dog) , Rapshody in Blue (Gershwin), Peter Gunn (Henry Mancini) que nas mãos de um qualquer ficaria com uma salada de covers desconexos, mas nas garras do Deodato levam novo jeito e tomam novos rumos. Na onda anglo-saxã (só no final, porque o início demorou) uma hora de apresentação e chega o final. No bis “Assim Falou Zaratustra”, a certa para acabar e ficar na cabeça de todos.
Eumir daria conta do recado da minha aversão à fugacidade da virada. Fui dormir com música boa ecoando.
Na luz do dia teve mais. Foram dois pequenos drops. A grata surpresa da Orquestra Rumpilez do maestro Letieres Leite, conduzindo percurssão e sopro, leveza de um domingo ensolarado de música com ritmo forte e melodias bonitas. Foram poucas músicas e um futuro a conferir. Só havia lido muita gente dando dica sobre os caras e ainda não tinha ouvido, agora vou atrás, quando rolar show vou conferir.
O outro drops foi no final,  já voltando para casa …
A dupla mais glam que poderíamos imaginar. Glam no brilho e na autenticidade, sem trocadilhos. No palco juntos: Maria Alcina e Edy Star. Maria Alcina, risonha, quase heroína de  postura adorada e Edy bem longe do clichê raulseixistico onde tentaram enquadrá-lo. Edy é bem mais, é cabaret, é sobejo de música brasileira das mais amplas areas. Edy sabe o ponto de equilibrio do cafona e do bacana.  Edy e Alcina, alternando figurinos, irônicos, rebolantes, dando sopa e show, contentes, cantando o triste Assis Valente. Com eles a Orquestra Urbana Arruda Brasil, ponteando malandros arranjos  Peguei quatro músicas do show. Mas valeu o riso e aquela tristeza recondita. Que Edy e Alcina jamais desapareçam.
Da Virada poderia ter visto mais ainda: Dom Salvador e Abolição com Tony Tornado, Edgar Winter, Sossega Leão (grande Skowa figuraço), Mad Professor, Erasmo Carlos, Slim Jam Phantom, Riachão e tantos outros. Mas não vi, porque a Virada são só 24 horas e não mais. Não dá pra estar em três lugares ao mesmo tempo.  Já tá bom? Não, não tá, creio que a cidade merece colorir mais dias, e para continuar sendo chato, temos que rediscutir as várias políticas culturais a serem implantas e os caminhos pelos quais elas passam. Virar a Virada. Fica a música que rola ainda na cabeça para pacificar e espantar os males …

fonte de meu amigo Sambernadense http://klaxonsbc.com/2011/04/18/ate-a-hora-que-virar-de-verdade/#comment-552
 

Um comentário:

  1. Adoro a virada cultural, mas é uma pena mesmo que não aconteça de forma mais expansiva na cidade. É uma oportunidade única de dedilharmos uma lista de opções e ter o prazer de ver de perto gente como você citou. Poderia ter mais tempo, realmente.

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