Uma
vez, a Fernanda Montenegro disse ao Caetano Veloso que, quando ia ao
sul do Brasil, se sentia num lugar relativamente estrangeiro, e que, em
Salvador, essa sensação era ainda maior. Porque, no Sul, parecia-lhe que
tinha ido à Europa, e, em Salvador, à África. Mas, quando ia a Minas
Gerais, ela se sentia dentro do Brasil. Meio que usando a analogia da
Fernanda Montenegro, quando eu ouço a paulistana Inezita Barroso (assim
como o belíssimo CD do meu tio Jaime Alem),
parece que eu escuto o que vem de dentro do país, do nosso mais
profundo, da nossa mais essencial identidade com digitais sem qualquer
falha. Inezita, pra mim, é um patrimônio nacional, um tesouro que traz e
mantém intacto o brilho dos interiores deste país. E como é bela e
melíflua a sua imagem, o seu jeito pitoresco e cheio de candura de
contadora de "causos", alguém que a gente recebe na cozinha, que é o
lugar mais informal e mais acolhedor de qualquer casa. Inezita Barroso é
o resgate de um Brasil não tingido pelo cinismo, pela falta de caráter,
pela falta de escrúpulos. É voz atávica e imemorial de um país que
ainda pode cantar com esperança o futuro e a beleza da vida. Parabéns,
Inezita, pelos seus 88 anos!
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